domingo, abril 19, 2009

A morena do 502.

Hoje mais uma vez eu me vi sozinha. Eu andei pela rua e me imaginei uma daquelas velhas solitárias que vivem em suas casa solitárias cercadas de gatos por todos os lados. Aquelas velhas que sobrevivem com uma aposentadoria miserável, gastam mais com os gatos do que com elas mesmas e que quando morrem ficam apodrecendo por dias até algum vizinho sentir o cheiro e chamar a polícia pra ver o que aconteceu. Eu sei que eu nunca vou ser uma velha maluca cercada de gatos. Eu nem gosto muito de gatos e minha rinite me faz espirrar quando fico muito tempo perto deles. Eu também não vou sobreviver de uma aposentadoria miserável, porque vou me formar e ganhar o suficiente pra pagar previdência privada e não depender de salário mínimo pra viver. O foda é o lance da solidão. Tudo bem, eu sei que eu amo ficar sozinha, mas isso é diferente de ser solitária. Vai que um dia eu olhe pra trás e veja que ninguém mais liga pra mim. Meus amigos esqueceram meu telefone, meu endereço e nem se deram conta de que eu não estou por perto. E todas as crianças da rua vão rir de mim, porque todo mundo que é solitário demais fica esquisito. E eu vou ser mais solitária que as velhinhas malucas cercadas de gatos, porque nem gatos eu posso ter. Muito tempo vai se passar até que um dia meus amigos vão estar em numa mesa de bar e alguém vai tomar um gole de whisky e vai lembrar que a Gabe adorava Johnny Walker, aí outro alguém vai perguntar por onde ela anda e depois de várias doses de whisky, várias teorias sobre o destino dela vão surgir até que alguém pegue o telefone e tente a sorte, vai que ela continua com o mesmo número. É claro que eu continuo com o mesmo número, tenho ele a anos, desde que eu tinha muitos amigos, mas eu não atendo o celular. Algum desses amigos vai ficar curioso (provavelmente o mais bêbado deles) e vai passar no meu apartamento. Como eu não vou atender o interfone ele vai perguntar pros vizinhos sobre a Gabriela, aquela que ama rock e tem vários amigos, a morena do 502. Eles vão dizer que o 502 é um apartamento que cheira mal, onde mora uma velha esquisita, mas ela não gosta de rock, nunca ouve música, e não tem amigos, nem conversa com ninguém. Esse amigo bêbado que nem sabe mais porque está ali vai insistir e vai bater no 502, vai que a velha esquisita saiba onde a Gabe foi parar. Depois de quase derrubar a porta e vomitar duas vazes (whisky e o cheiro ruim daquele apartamento não são uma boa combinação), ele vai arrombar a porta. E lá vai estar ela, com uma expressão ao mesmo tempo serena e triste em seu rosto envelhecido pelo tempo. O amigo cai chamar a polícia e todos os vizinho vão comentar sobre a velha que estava morta a dias dentro do apartamento. Como ninguém se deu conta de que o cheiro ruim apareceu de repente ? Ah, gente esquisita cheira mal mesmo, vai dizer algum adolescente mal educado. Os amigos vão se surpreender com o triste fim de alguém com quem eles simplesmente esqueceram de se preocupar. E um dia alguma doida que tem um blog perdido na internet e acha que é escritora vai me usar de exemplo num texto totalmente sem nexo. E as adolescentes bobinhas que amam caras que não tão nem cagando pra elas vão ter medo de terminar como eu. E cada um vai ter uma versão da minha história pra contar, mas nenhuma chegará perto da verdade e essa menininha metida a escritora nem vai se dar conta que um dia eu também escrevi, no meu blog, um texto sobre a velha maluca e solitária que eu tinha medo de me tornar.

2 comentários:

  1. fumo altas né? skopakopaks
    confesso que foi engraçado ler GABE tantas vezes e pensar 'êpa, não foi eu que escrevi isso aqui' :P gostei demais da complexidade desse teu texto, faz pensar em muito mais coisas, faz pensar no que eu vou me tornar e se um dia alguém louco vai ta futricando na internet e achar meu blog. tenho até pena.
    amei DEMAIS a parte "E todas as crianças da rua vão rir de mim, porque todo mundo que é solitário demais fica esquisito."
    mal sabem essas crianças que um dia elas lembraram de sua infância e pensar 'e aquela velha esquisita que vivia sozinha?', querendo ou não, nossa existência vai dar saudade em alguém. até naquelas criancinhas bobinhas que riam.

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  2. e sou analfabeta :/

    lembrarão*

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